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  • Festival da fertilidade – Festival of the Steel Phallus

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    Anote a data: primeiro domingo de abril. Se estiver a fim de um programa diferente, neste dia é realizado, todos os anos, o Festival da Fertilidade, em Kawasaki (província de Kanagawa). Já fiz algumas matérias sobre o tema.

    O Kanamara Matsuri, ou Festival do Falo de Aço, atrai tudo que é tipo de público – desde pessoas que acreditam no culto ao órgão, que é reverenciado como se fosse algo divino, a turistas e curiosos, que querem tirar fotos inusitadas e rir um pouco.

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    No ponto alto da festa, duas esculturas de pênis gigantes saem pelas ruas. Alguns dos homens que carregam o chamado mikoshi, ou espécie de templo portátil, se vestem com roupas de mulher. A tradição indica que esse ritual aumenta a fertilidade dos envolvidos.

    O templo foi construído há mais de 150 anos, no Período Edo (1603-1867). Os monges do templo também divulgam uma história folclórica sobre o deus local.

    Segundo a lenda, um demônio com dentes afiados teria se escondido na vagina de uma jovem e castrado dois homens durante a noite de núpcias. Então, um ferreiro teria construído um falo de aço para quebrar os dentes do demônio.

    Hoje, como atrai muitos turistas e homossexuais, o festival serve também para fazer campanhas de prevenção à aids.

    O festival é realizado há quatro décadas. Em um país com um índice relativamente baixo de natalidade, a festa acaba se tornando um incentivo aos casais.

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    Mais informações no site oficial do evento: http://tomuraya.co.jp/wakamiya-10.htm (em japonês).

    Aqui um vídeo que fiz para a BBC Brasil.

    [youtube=http://youtu.be/EHxNBE4PeZo]

     

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    First Sunday of April. At this day is held every year the Festival of Fertility in Kawasaki (Kanagawa Prefecture). I did some stories about this topic.

    The Kanamara Matsuri, or Festival of the Steel Phallus, attracts every kind of audience – from people who believe in the cult of the body, which is revered as something divine, and curious tourists, who want to take pictures and laugh.

    At the height of the party, two giant penis sculptures go out to the streets. Some of the men who carry the mikoshi, or sort of portable temple, dress up in women’s clothes.

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    The temple was built more than 150 years ago, in the Edo Period (1603-1867). The monks of the temple also disclose a folk story about the local god.

    According to the legend, a demon with sharp teeth would be hidden in the vagina of a young girl and castrated two men during the wedding night. Then, a blacksmith would have built a steel phallus to break the demon’s teeth.

    Today, the event attracts many tourists and homosexuals and also serves to make AIDS prevention campaigns.

    The festival is held for four decades. In a country with a relatively low birth rate, the event eventually becomes an incentive for couples.

    More information on the official website of the event: http://tomuraya.co.jp/wakamiya-10.htm (in Japanese).

  • Dois anos – Two years

    Terremoto

    A primeira visita à Minami Sanriku, uma pequena vila de pescadores na província de Miyagi, ficará para sempre gravada na minha memória. Fui até o povoado nos primeiros dias após o tsunami de 11 de março de 2011. Difícil descrever o que vi por lá. Parecia cena de filme de catástrofe. Paramos o carro logo na entrada da cidade e, mesmo sem saber a dimensão da tragédia, eu e três colegas de trabalho ficamos ali paralisados, apenas observando, por longos minutos.

    Não trocamos nenhuma palavra. Não me lembro também de ter olhado para o rosto dos meus colegas. O silêncio era rompido apenas por carros que passavam pela estrada. Ao longe, o segundo piso de um sobrado parecia intacto em meio a tanta destruição. Um casal de japoneses caminhava com dificuldade em meio aos destroços. Procuravam por algo. Talvez uma foto ou qualquer objeto pessoal – tarefa quase impossível.

    Um pouco mais distante, uma senhora lavava objetos num rio sujo. Ver fotos e brinquedos de criança em meio à lama me partiu o coração. Cada vez que avançávamos em direção ao mar, o cenário piorava. Era destruição demais. O olhar perdido das pessoas e a tristeza que pairava no ar se misturavam ao cheiro da água do mar que formava poças por todos os lados e criavam um clima pesado.

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    Quando me lembro de determinadas cenas, meus olhos se enchem de lágrimas. O que será que aconteceu com a menina que, incansavelmente, não parava de chamar pela mãe entre os destroços? Ou as dezenas de crianças que ficaram por mais de um mês esperando os pais irem buscá-las na escola? E o senhor que viu a esposa e a mãe serem levadas pela onda gigante e não tinha como ajudá-las?

    Milhares de histórias foram contadas. Todas trágicas.

    Ainda há muito para ser reconstruído no Japão. E fico cada vez mais impressionado com a capacidade de se reerguer dos japoneses. Esse povo perdeu tudo em vários momentos da história e sempre conseguiu superar tudo, mesmo com sofrimento estampado no rosto.

    Após um longo período de repouso, por causa de uma doença, voltarei a postar aqui. Para recomeçar essa fase, farei uma série sobre minha cobertura do terremoto/tsunami/desastre nuclear. Por favor, deixe seu comentário!

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    The first time I’ve been to Minami Sanriku, a small fishing town in Miyagi prefecture, will remain forever engraved in my memory. I went to the village in the first days after the tsunami of March 11, 2011. Hard to describe what I saw there. It looked like the scene of a disaster movie. We stopped the car at the entrance of the city, and even without knowing the extent of the tragedy, me and three colleagues stood there paralyzed, just watching for long minutes.

    We stayed there in silence. Nobody said any words. I do not remember also have looked into the faces of my colleagues. The silence was broken only by passing cars on the road. By far the second floor of a house seemed intact amid so much destruction. I saw a Japanese couple walking with difficulty in the wreckage. They were looking for something. Maybe a photo or anything personal – almost impossible task.

    A little farther, a lady was washing objects in a dirty river. Having seeing photos and children’s toys in the mud broke my heart. Each time we moved towards the sea, the scenario worsened. It was too much destruction. The people were looking lost. And the sadness that hung in the air was mingled with the smell of sea water that formed puddles everywhere.  I felt heavy.

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    When I think about some scenes, my eyes fill with tears. I wonder what happened to the girl who tirelessly kept calling his mother in the rubble? Or the dozens of children who stayed for over a month waiting for their parents go pick them up at school? And how about the old guy who saw his wife and mother being taken by the giant wave and could not help them?

    Thousands of stories have been told. All tragic.

    There is still much to be rebuilt in Japan. And I’m increasingly impressed with the ability to rise from the Japanese. These people lost everything several times in History and always managed to overcome all, even with pain on his face.

    After a long rest period because of a serious illness, I am returning to post here. To start this phase, I will write about my coverage of the earthquake / tsunami / nuclear disaster. Looking forward to hear your comment.

  • Barcode / Código de barras

     

     

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    Desde a popularização dos celulares com câmera, muitas empresas japonesas passaram a adotar o QR code. Mas os tradicionais códigos de barra ainda estão por ai. Uma empresa de comunicação de Tóquio, chamada Design Barcode Inc. – デザインバーコード – (http://www.d-barcode.com/barcodes.html), achou um jeito divertido de aproveitar o espaço nas embalagens. Eles criam códigos de barras divertidos. E criatividade não falta. Fiz uma matéria sobre o tema há dois anos para a extinta revista Made in Japan, e entrevistei o diretor de criação da empresa, Takamitsu Kamakura. Ganhei um livro que eles produziram com esses códigos de barra.

    A ideia revolucionária destes códigos de barras acabou projetando a agência, que faturou em 2005 o Good Design Award, em 2006 o Prêmio Directors Club, e no mesmo ano o Cannes Lions International Award Titanium de Publicidade!

    Minoru Yoshida, fundador da agência e que infelizmente faleceu no início deste ano, sempre disse que o objetivo era buscar uma nova forma de comunicação com os consumidores. Ele queria fazer “anúncios tão bons que as pessoas acabariam dispostas a pagar para vê-la”. E funcionou bem. Hoje, muitas pessoas “pagam para ver os anúncios.” Alguns até colecionam esses códigos de barras.

    Quem estiver no Japão, não deixe de procurar nas lojas de conveniência e supermercados embalagens com esses códigos de barras.

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    Since the mobile phones with camera became popular, many Japanese companies began adopting the QR code. But the traditional barcodes are still around. A communication company in Tokyo, called Design Barcode Inc. – デザインバーコード – (http://www.d-barcode.com/barcodes.html), found a funny way to utilize the space on packaging. They created funny barcodes. And they are very creative. I did an article on the subject two years ago for the magazine Made in Japan, and interviewed the company’s creative director, Takamitsu Kamakura. They gave me a book they produced with these barcodes.

    Their revolutionary idea of designing barcodes brought them to the spotlight and they won the 2005 Good Design Award, 2006 Type Directors Club Award, and the 2006 Cannes Lions International Advertising Titanium Award!

    Minoru Yoshida, who founded the agency and who unfortunately passed away early this year, always said that the goal was to pursue a new form of communication with consumers. He wants to make “advertisements so good that people are willing to pay to see it”. And it worked well. Today, many people “pay money to see the ads”. Some collect this barcodes.

    Anyone who is in Japan, try to looking for these packaging with different barcodes.

  • E agora? / And now?

    Minami
    “E agora? Não sei mais o que será da minha vida”. O choro, inevitável e incontrolável, tomava conta daquele senhor há dias. Ele não tinha mais referência. Perdeu casa. Perdeu trabalho. Perdeu familiares. Assim como a cidade e o porto de Minami Sanriku, uma vila de pescadores na província de Miyagi, suas esperanças foram levadas pelo tsunami. O lugar hoje praticamente não existe mais. As águas carregaram tudo. Quase tudo. Sobrou pouca coisa. E em meio aquele vazio todo, não me sai da cabeça aquele olhar do senhor de cabelos ralos e brancos. Triste, perdido no horizonte. O mesmo horizonte que escondia um céu avermelhado de fim de tarde. Lindo, calmo e sereno. E agora?

    (da série microcrônicas, por Ewerthon Tobace, 27/09/11)

    “And now? I do not know what my life will become. ” The crying, inevitable and uncontrollable, took care of that old man’s life for days. He had no further reference. Lost house. Lost work. Lost family. As the city and the port of Minami Sanriku, a fishing village in the province of Miyagi, his hopes were taken away by tsunami. The place practically no longer exists today. The water charged everything. Almost everything. Left little. And amid all that emptiness, the look of that old man with white hair don’t get out of my mind. Sadly. Lost in the horizon. The same horizon that hid a red sky in the late afternoon. Beautiful, calm and serene. And now?

    (from micro chronic serie by Ewerthon Tobace, 09/27/11)

  • A história de Noriko

    Noriko

    Há três anos, uma garota filipina foi tema de diversos programas de tevê, capas de revistas e manchetes de jornais japoneses e também estrangeiros.

    A adolescente, chamada Noriko Calderon, de apenas 13 anos, teve de decidir em ficar no Japão – país onde nasceu e cresceu – ou voltar com os pais, deportados, para as Filipinas. Ela ficou e o caso ganhou os holofotes da mídia.

    Fiz uma entrevista com a garota para a revista Capricho (edição de 7 de junho de 2009, número 1072). Acho que ficou bem bacana. Para quem não conhece a história da menina, segue aqui um trecho do texto que foi publicado pela revista.

    As lágrimas que teimaram em não cair por tanto tempo, encharcaram as mangas do uniforme escolar de Noriko Calderon no dia 13 de abril de 2009. Foi naquela tarde, no aeroporto internacional de Tóquio, que a garota de 13 anos disse adeus aos pais, Arlan e Sarah. “Naquele dia de manhã fui para escola, como todos os dias. Só que voltei mais cedo e, quando saímos de casa, foi que bateu uma grande tristeza”, lembra a garota. “No caminho queria que o tempo parasse ou que o aeroporto não chegasse nunca.”

    Mas o temido momento chegou. E o drama da família filipina, que lutou por quase três anos na Justiça para poder permanecer no Japão, terminou ali, num abraço demorado e emocionado. Com as vozes embargadas, pais e filha fizeram promessas de se esforçarem para um dia, quem sabe, voltarem a viver felizes como antes. Todos juntos. A partir dali, a menina ficaria sozinha no Japão enquanto os pais seguiriam, deportados, para o país natal, as Filipinas.

    O lance todo começou em julho de 2006. Noriko estava na escola quando pai foi buscá-la. “Levei um susto porque ele ainda estava com o uniforme do trabalho”, conta. O coração palpitava forte e ela sentia no ar que algo não estava bem. “No caminho para casa, fiquei sabendo que minha mãe tinha sido presa e que eu não era japonesa, mas filipina. Não conseguia entender nada. Filipina, eu? Como?”, questionava.

    Até então, a garota achava que era japa, assim como os pais. Mas os Calderon, na verdade, tinham entrado no Japão com passaporte falso no começo dos anos 90. Noriko nasceu anos depois e cresceu sem saber desse pedaço da história dos pais. “Briguei na hora com meu pai porque achava que ele devia ter contado antes”, fala. “Mas depois, não toquei mais no assunto.”

    Esse é só um trecho da matéria. Mas acho que deu para conhecer a história da garota neh? Depois de mais de dois anos de batalha judicial, Noriko teve de fazer sua escolha. Os pais a apoiaram, já que ela só fala o japonês e quer terminar os estudos aqui. Ela vive agora com uma tia casada com japonês.

  • Enoshima

    MteFuji

    Sunset view of Mt. Fuji from Enoshima.

    Vista do Monte Fuji no entardecer, em Enoshima.